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O Trompete na Música Popular Brasileira


O Trompete na Música Popular Brasileira
Na década de 1980, fui convidado a fazer o mestrado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Jamais esquecerei que, ao ser perguntado sobre a tese que desenvolveria, sorridente, disse ao diretor: ‘O trompete na música popular brasileira’. Ele não pensou duas vezes para me dizer que aquela escola não era para música popular… O tempo passou e ainda não fiz mestrado… Mas pretendo fazê-lo.
Vinte e poucos anos se passaram e aqui estou convidado a escrever este ensaio, justamente com o tema que pretendia desenvolver no mestrado.
O trompete já era usado pelos egípcios, pois foi encontrado na câmera mortuária do Faraó Tutankhamon (cerca de 3250 AC). Os trompetes ali depositados eram feitos de prata e, o que sabemos, é que o bocal, feito de ouro, tinha aproximadamente a medida de um 7C Bach. Hoje em dia, dispomos de várias medidas, para os diferentes tipos de lábios ou para as diferentes sonoridades desejadas. No caso dos bocais Bach, o número
refere-se ao diâmetro e a letra ao copo do bocal. Numa medida 7D, o copo é mais raso e, na 7B, mais fundo do que na 7C. Nos bocais Bach as letras vão de A a F, ou seja, do mais fundo ao mais raso.
Acredito que o leitor já tenha ouvido falar das muralhas de Jericó, que foram derrubadas pelas trombetas (trompete em italiano). Por esse fato, já podemos ter uma idéia da força deste instrumento.
Quando assistimos a uma parada militar, vemos um Corneteiro e um Oficial na frente do batalhão que, com alguns toques – chamados de ordem unida – comandam toda a tropa. Quem já assistiu a um filme de guerra, ouviu um Corneteiro reunindo a tropa, ou mesmo acordando a todos com um toque chamado Alvorada ou, ainda, fazendo o famoso toque do silêncio em um funeral.
O trompete é uma combinação de sete cornetas, cada uma delas com sua própria série harmônica. O trompete utilizado na música popular é o Sib – este b minúsculo sendo a abreviação de bemol. Existem trompete em outras tonalidades e tamanhos como, por exemplo: em Dó, Mib, Ré e etc., além do piccolo trompete, geralmente em Sib e Lá mas, também, nas tonalidades de Dó e Réb.
Conversando com Pedro Paulo de Siqueira, grande trompetista brasileiro, na busca de mais informações para este ensaio, me ficou claro que o trompete, na nossa música, na maioria dos casos, tem sua origem nas bandas de música ou bandas de coreto. Ele conta que, quando criança, ficava encantado com a atuação do Corneteiro nos desfiles, e posso assegurar que ele não é o único.
É claro que tivemos, na história do trompete, influências muito importantes, vindas sobretudo dos norteamericanos
como Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Clark Terry, Maynard Ferguson, Freddie Hubbard, Clifford Brown, Lee Morgan, Harry James e muitos outros, sem contar o grande número de trompetistas dedicados à música erudita.
Nossa música também tem seus gigantes do trompete – a maioria, infelizmente, sem registro – que, por sua vez, também influenciaram gerações de músicos, sobretudo trompetistas. Solon Gonçalves, Pedroca
Carmelino Veríssimo de Oliveira), (Júlio Barbosa, Bonfiglio de Oliveira, Hamilton Cruz, Formiga (José Pinto), Maurílio da Silva Santos, Butinão (Sebatião Gilberto), Felpudo (Geraldo Auriani), Buda (Dorival
Aurieni), Lelé (Haroldo Paladino), Capitão (Edgar Batista), Papudinho (José Lídio Cordeiro), Settimo Paioletti, Maguinho (Magno D’Alcântara Pereira), Enedir Santos, José Roberto Branco, Odésio Jericó, Ferrugem (Osvaldo Kauslaskas), Nilton Rodrigues, Lázaro Duarte, Saul da Silva Bueno. Este último tinha, em Curitiba, um bar muito famoso, o Saul Trompete Bar, onde a maioria dos músicos que passava pela cidade marcava presença. Este grande trompetista influenciou muitos músicos que tiveram o privilégio de freqüentar seu bar.
Tive a felicidade de conhecer e trabalhar com a grande maioria dos trompetistas acima . Eles são de gerações anteriores à minha. Quando comecei no trompete, ouvíamos muito Márcio Montarroyos, na época o
trompetista brasileiro com o maior número de registros em disco. Podemos afirmar, sem medo de errar, que Montarroyos influenciou, e continua influenciando, um grande número de trompetistas, não só da minha geração, como das posteriores também. Márcio disse-me, uma vez, que Papudinho foi um dos trompetistas em quem se espelhou.
Da geração de Márcio Montarroyos, ou muito próxima, temos outros gigantes. Cláudio Roditi , Bidinho Spinola, Paulinho Trompete. Na nova geração, Altair Martins, Flavio Melo Nahor Gomes, Tenisson Rufino, Cambé (Cláudio Sampaio), Mané Trompete (Manoel E. dos Santos), Júnior Galante, Sérgio Cascapera, Nailson Simões, Gilberto Siqueira, Silvério Pontes – que, com o trombonista Zé da Velha) forma uma bela
dupla de gafieira – Joatan Nascimento – que gravou um lindo CD, intitulado “Eu Choro Assim”, no qual interpreta alguns compositores de choro -, Daniel D´Alcantara, Jessé Sadoc do Nascimento Filho, Paulo Baptista, Carlinhos Aligator (Carlos Eduardo Gonçalves Cerdeira), Moisés Alves (Paraíba), Jorginho do Trompete, Rogério Leitum, Reginaldo Gomes, Marcelo Cotarelli e muitos outros. Graças à velocidade da informação hoje em dia, podemos encontrar jovens trompetistas tocando tudo a que têm direito, como Cidimar Vieira, João Lenhari, Rubinho Antunes, Fabinho Costa…
Infelizmente, o trompete não ocupou lugar de destaque na música popular brasileira em comparação com outros instrumentos, dos quais encontramos mais registros. Hoje em dia, isto está mudando e muito rápido. Se tivéssemos à disposição mais registros e mais facilidade de acesso aos músicos citados acima teríamos, com certeza, milhares de excelentes trompetistas espalhados por todo o Brasil, cujo melhor produto, na minha opinião, é a música. Como diz a flautista, compositora e produtora Léa Freire, música é um excelente remédio
que não tem contra-indicação .
Na época em que trabalhei num conjunto de baile na cidade de Santos (SP), ainda adolescente, assisti à dois shows que me marcaram muito pela presença de dois trompetistas. Maguinho – tocando com Roberto Carlos
– de quem ainda posso ouvir de memória as lindas notas tocadas naquele show. E Maurílio – tocando com Wilson Simonal no auge de sua carreira. Como swingava aquele naipe com Maurílio no trompete, Zeca (José
da Silva) no trombone e Zé Roberto (José Roberto Simonal) no saxafone.
Pedro Paulo , que gravou vários discos como sideman, é o nosso pioneiro no samba jazz, e já me disseram que era o predileto de Antônio Carlos Jobim.
Mesmo menos registrado do que outros instrumentos, o trompete sempre foi muito utilizado por compositores e arranjadores, em virtude da grande versatilidade que o instrumento oferece em termos de sonoridade,
extensão e ataques suaves ou fortes. Por ser o mais agudo da família dos metais, o trompete geralmente ocupa um lugar de liderança na maioria das formações, sejam grandes ou pequenas.
No nordeste, com destaque para o estado de Pernambuco, muitos compositores e arranjadores utilizam-se do trompete, principalmente para os variados tipos de frevo e maracatu. Ouvindo o naipe de trompete numa orquestra de frevo, sente-se que a temperatura sobe, e muito. É o caso da Spok Frevo, dirigida pelo maestro Spok (Inaldo Cavalcante de Albuquerque), com uma parede de trompetes de arrepiar. São eles: Gemerson da Silva Neto, Peto (José Francisco de Lima Filho), Alexandre Papa Légua (Carlos Alexandre Rodrigues de Lima), Lampadinha (Jaílson José da Silva, Enok Chagas (Enoque Francisco das Chagas) e Fabinho Costa
(Fábio Pereira da Silva). Estes músicos, além de exímios trompetistas, são professores e, portanto, responsáveis pela manutenção desta riqueza musical brasileira que é a música nordestina . Com certeza os trompetistas da Spok Frevo já estão influenciando milhares e milhares de jovens por todo o Brasil.
Pixinguinha, Jacob do Bandolim e muitos outros grandes compositores especificamente de choro não contribuíram muito para o repertório do trompete, visto que ambos eram virtuosos em seus respectivos instrumentos e criavam grande parte de suas músicas para eles. Mas tivemos compositores trompetistas, também virtuosos, que escreveram muitos choros para o trompete, com destaque para Bonfiglio de Oliveira, Chico Dois, Porfírio Costa e Pedroca. Pedroca foi trompetista da Rádio Nacional, que era ouvida em todo o Brasil. Odésio Jericó sempre conta que tirava muitos dos solos tocados por Pedroca que ouvia na rádio.
O professor Osvaldo Lacerda tem uma linda composição para trompete solo chamada “Rondino”. Fernando Dissenha – trompete solo da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – fez um maravilhoso registro desta composição, que lembra muito a música popular do nordeste, em um CD independente, intitulado ”Carambola”.
Grandes arranjadores, como Chiquinho de Morais, José Roberto Branco, Cyro Pereira, Erlon Chaves, Elcio Alvares, Lincoln Olivetti e muitos outros, alguns deles trompetistas, utilizaram o trompete em seus arranjos
com elegância e categoria tão grande, que fizeram com que o instrumento mantivesse sua cadeira cativa em todos os gêneros da rica e bela música popular brasileira.
Ensaio elaborado especialmente para o projeto Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia, patrocinado pela Petrobras através da Lei Rouanet
Assinado por Walmir Gil


2 comentários:

  1. Grande Gil, a musicalidade dele todos nós já conhecemos (indiscutível). Mas a pessoa dele, nem todos conhecem. Cara incrível! Sou fã n°1.

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