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A ÉPOCA DE OURO DA MPB - Anos 30, 40 e 50

A ÉPOCA DE OURO DA MPB - Anos 30, 40 e 50


I - INTRODUÇÃO

Entre 1927 e 1946, muita coisa vai suceder a nossa música popular, como veremos adiante. Foi um período tão rico que chegou a ser alcunhado pelos historiadores de "idade de ouro". Em termos de canção, isto é, música vocal com acompanhamento instrumental, atravessaremos, nesta fase, um período de esplendor. Mas, quanto à música instrumental, o período não será, definitivamente, dos mais positivos. Para muitos, será mesmo, bastante fraco. Os grandes nomes de gerações anteriores, como Candinho Silva, Pixinguinha, Donga, Louro, Bonfiglio de Oliveira, Luís Americano e muitos outros, embora continuassem produzindo, têm apenas uma pequena parte dessa produção chegada ao rádio e ao disco. Prova disso é que Candinho Silva e Pixinguinha, ao morrerem - respectivamente em 1960 e 1973 - deixarão dezenas e dezenas de composições inéditas, pelas quais editoras e gravadoras jamais se interessaram.

No ano de 1930 - ou talvez um pouco antes - a Música Popular Brasileira dá por inaugurada toda uma década, exatamente a que passaria a história como a época de ouro, como já citamos. Dois motivos essenciais a determinaram. Primeiramente, a mudança do sistema de gravação mecânica para a gravação elétrica, o que permitia o registro fonográfico de vozes de curta extensão, mas cheias de malícia que o samba exigia. O segundo motivo foi o aparecimento e a espantosa expansão do primeiro veículo de comunicação de massa, o rádio, estimulado em seu desenvolvimento pelo novo governo Getúlio Vargas, que nele viu um oportuno fator de integração nacional. E também de esperta consolidação política do seu governo.

A cada mês o número de músicas, compositores e intérpretes crescia. Personagens que fizeram a própria integração nacional através do mito de suas vozes e letras levadas de ponta a ponta ao Brasil pelo milagre das ondas transmitidas sem fios.

Entre tantos, destacam-se Carmem Miranda e Mário Reis, os cantores que foram fruto direto do milagre do microfone a partir de 1930, já que suas vozes de curta extensão puderam registrar toda a malícia e bossa da música popular.

Logo a seguir apareceram o seresteiro Sílvio Caldas e o meteórico mais genial sambista Luís Barbosa; o ex-alfaiate Carlos Galhardo, que se consagraria como cantor romântico apesar de iniciar-se com Boas Festas de Assis Valente (1933) ; o hoje esquecido Patrício Teixeira, grande sucesso de época; o iluminado Orlando Silva, que a partir de 1936 acendeu a mais forte luz que a MPB já terá conhecido até hoje, pelo menos na sua época de apogeu (1935-1945); as cantoras Marília Batista e Araci de Almeida, sempre disputando a preferência de Noel; o casal 20 que foi Odete Amaral e Ciro Monteiro; e ainda as irmãs Batista (Linda e Dircinha). E tantos e tantos outros que acabaram injustamente esquecidos.

II - OS MÚSICOS

Em clima tão pouco estimulante para o choro, raros nomes irão se revelar nesta fase. Cantores como Francisco Alves, Carmem Miranda, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Araci de Almeida, João Petra de Barros, Mário Reis, Castro Barbosa, farão um sucesso imenso, passando a ser, por sua vez, cantados em verso e prosa pelo Brasil inteiro. Apesar de todo esse êxito, sobrarão apenas migalhas para os músicos, alguns simplesmente maravilhosos, porém todos reduzidos ao humilde papel de meros acompanhadores. Em rádio e em disco, não há ,a rigor, conjuntos de choro, mas regionais , que são formados para acompanhar os astros da música vocal.

Nesta época obras primas são escritas para circular apenas no grupo estreito dos próprios chorões. O choro - como aliás toda a música instrumental - tornara-se uma música de público restrito, geralmente feito para uso interno de seus criadores. Claro que lá uma ou outra composição instrumental sempre conseguirá romper esse círculo de ferro e conquistar, através do rádio e do disco, alguma popularidade. Mas, para cada uma dessas vitoriosas, quantas dezenas (ou centenas?) permanecerão num eterno cone de sombra?

A partir de 1930, com a criação da Orquestra Colbaz, e o lançamento de seus discos feitos pela gravadora Columbia, começa a se popularizar o chamado choro paulista, tendo Armandinho Neves e Larosa Sobrinho como precursores. A Orquestra Colbaz grava entre 1930 e 1932, os mestres do choro paulista. Regida por Gaó, e tendo como músicos o próprio Gaó(piano), Atílio Grani (flauta), Zé Carioca (bandolim), Hudson Gaia (violão), Jonas Aragão (saxofone-alto),Ernesto Trepiccioni (violino) e José Rielli (acordeom).

Nesta fase do choro paulista é indispensável citar o compositor e instrumentista Alberto Mariano, autor de clássicos como Rapaziada do Brás e Noites Paulistas. Organizou o Sexteto Bertorino Alma com Gino Alfonsi, Antenor Driussi, Ernesto Nardi, Garoto e Gaó. Outros que não devem ser esquecidos são: o flautista, clarinetista e saxofonista Nicolino Cópia, o Copinha e Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, um dos maiores músicos e compositores de choro de todos os tempos. Nesta mesma época surgiu o choro mineiro, restrito praticamente à valsa, tendo à sua frente o sanfoneiro e compositor Antenógenes Silva.

Assim como Alberto Mariano, o gaúcho Radamés Gnattali tinha formação erudita e vem enriquecer o repertório nesta fase e principalmente na segunda metade da década de trinta, promovendo a sofisticação harmônica e buscando novos caminhos para o choro. Junto com ele, outro que traz importante e curiosa contribuição para a música popular é Gastão Bueno Lobo, introduzindo a guitarra havaiana, tendo em Garoto seu herdeiro nesse instrumento.

No Rio de Janeiro, os principais músicos de choro ativos na primeira metade da década de trinta são Pixinguinha ( flauta), Luperce Miranda (bandolim), Luís Americano (clarineta e sax-alto) e Benedito Lacerda(flauta). Na segunda metade da mesma década, cabe a Benedito Lacerda e Dante Santoro a divulgação do choro.

A primeira metade da década de quarenta mostra um visível retrocesso do choro, com diversos artista sendo cada vez menos solicitados para gravar. Pixinguinha, que desde 1935 não tinha um único choro lançado, ressurge, afinal, em 1941, com dois de seus choros mais famosos, Lamentos e Carinhoso. Em 1942, Garoto ( guitarra havaiana) e Carolina Cardoso de Menezes (piano) lançam três discos e são um imenso sucesso.

Pode-se dizer que é na segunda metade da década de quarenta que surge a quinta geração do choro, formando uma fase bem mais propícia para o gênero, quase uma pequena fase de ouro, surgindo diversos grupos. Um deles é o Quarteto Brasil , integrado por Luperce Miranda, José Meneses, Tute e Valzinho. Os Milionários do Ritmo é outro conjunto dessa época, composto por Djalma Ferreira, Oscar Belandi, José Meneses e Chuca-Chuca.
E explode, por assim dizer, no Rio de Janeiro a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, que em 1945 fará sua estréia em discos com Um chorinho na Aldeia, de autoria do próprio maestro. Por sua vez a big-band de Otaviano Romero Monteiro, o Fon-Fon , grava em 1945 o choro Deixa por minha conta , do sax-tenor Cipó . Surgem outras orquestras, como a de Carioca e a de Chiquinho.

Benedito Lacerda retorna em grande estilo, em 1945, gravando na RCA Victor, O Urubu e o gavião, de Pixinguinha. A partir de 1946, Benedito promove o retorno de Pixinguinha, só que, agora, com o mestre carioca tocando, não mais flauta, mas o sax-tenor. Na RCA Victor, ambos regravam diversos choros de Pixinguinha.

Destaca-se nesta época como solista de clarineta e de sax alto - mais tarde também de sax-soprano - o jovem mineiro Abel Ferreira, que se tornaria o sucessor de Luís Americano a partir de 1960.

Mesmo tendo estreado em 1933, somente no fim da década de quarenta que o divinal Jacó do Bandolim tem oportunidade como solista e grava seu primeiro disco pela Continental. Mais tarde ingressa na RCA Victor, onde gravou dezenas de discos maravilhosos, com clássicos como Dolente, Doce de Coco e Noites Cariocas.

Diversos outros músicos nos marcaram esta fase, como o trombonista carioca Raul de Barros e Altamiro Carrilho, que após a morte de Benedito Lacerda em 1958, passa a ser considerado o melhor flautista popular brasileiro. Em 1947, Valdir Azevedo assume a liderança do conjunto de Dilermano Reis, e logo estréia em discos, com os choros Carioquinha e Brasileirinho. Temos também o trompetista Pedroca; o acordeonista gaúcho Chiquinho do Acordeom; o violonista Djalma Andrade ( Bola Sete); outro acordeonista, o nordestino Sivuca; e diversos outros.

Nos anos cinqüenta poucos valores surgiram. Almirante promove, em meados de 1954, o I Festival da Velha Guarda, formou-se então o conjunto A Velha Guarda, integrado por Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Bide, Alfredinho do Flautim, J. Cascata, etc. No entanto a gravadora Sinter não aproveita a oportunidade de registrar o choro destes verdadeiros mestres e prefere usar o grupo para gravações de músicas carnavalescas, mais comercial. No entanto em 1957, registra um dos mais importantes álbuns da história do choro: Assim É Que É. Também neste ano, a Sinter grava o LP Cinco Companheiros , onde seleciona clássicos de Pixinguinha.

Jacó do Bandolim realiza, em 1955, na TV Record, A 1º Noite dos Choristas , e em 1956 a 2º e última, destacando-se o bandolista Isaías.

III - OS COMPOSITORES

No ano zero da época de ouro apareceu o primeiro sucesso de um jovem mineiro da cidade de Ubá , que viria a ser um dos mais prestigiados compositores da Música Popular Brasileira na década de ouro. Ary Evangelista Barroso. Chegando ao Rio de Janeiro em 1920, fixou residência e formou-se em Direito. Em 1930 venceu um concurso de carnaval com a marcha Dá Nela dando nova dimensão aos processos harmônicos da música popular brasileira. Compôs a obra prima Aquarela do Brasil em 1939, que viria a ser a peça brasileira mais gravada em todo o mundo. Em 1944 vai aos Estados Unidos a convite de Walt Disney, musicar o filme Você já foi à Bahia? , o que lhe valeu o diploma da Academia de Ciências e Arte Cinematográficas de Hollywood.

É quando, em 1929, estréia no conjunto Bando dos Tangarás, ao lado de Almirante, João de Barro (Braguinha), Alvinho e Henrique Brito, o feio e franzino estudante de medicina e poeta, Noel de Medeiros Rosa. É a época do primeiro sucesso, o samba Com que roupa . Em 1932 começa sua parceria com Osvaldo Gogliano (Conversa de Botequim, Feitiço da Vila, Feitio de Oração ), em dez produções. Entre outras obras destacam-se Dama de Cabaré e Último Desejo; e ainda Pierrô Apaixonado com Heitor dos Prazeres; Até Amanhã e Cor de Cinza, com Kid Pepe; e a famosa As Pastorinhas, com João de Barro. Sua vida boêmia o levou precocemente à morte, falecendo com 27 anos, em 1937.

Surge então, o grande Lamartine Babo, ou ainda, Lalá, que começou compondo diversas marchas para vários ranchos: Recreio das Flores, Africanos, Jardim dos Amores, etc, sendo seu primeiro sucesso a marcha Foi você, em 1925. Foi compositor, cantor e radialista, além de escrever peças para teatro. Em 1930 compõe Rancho Fundo junto com o amigo Ary Barroso, obtendo grande sucesso. Foi autor de letra e música de vários hinos de clubes do futebol carioca. Tem também composições com Noel, Braguinha e muitos outros.

Descoberto pelo compositor Alcebíades Marcelo, o gênio Ataulfo Alves logo conhece Carmem Miranda. Compôs sucessos como É negócio casar e Ai que saudades da Amélia , esta em parceria com Mário Lago. Como cantor apareceu em discos com Leva meu Samba e Alegria na casa de pobre , em 1941.

Outra figura notável desta época é o compositor e intérprete baiano Dorival Caymmi, que em 1935 deu início em Salvador como profissional na Rádio Clube de Salvador, aos 19 anos, com toadas e marchinhas . É intérprete de suas próprias canções , algumas internacionalmente conhecidas, como O que a Baiana tem? , Maracangalha e Tão Só .
Sem esquecer do extraordinário Braguinha ou João de Barro (pseudônimo que usava para esconder-se dos preconceitos que a MPB causava), que é autor de diversas marchas carnavalescas, ao lado de Lamartine Babo e outros. É considerado um dos cinco maiores compositores da época de ouro, junto com os quatro anteriores.

Inúmeros outros compositores rechearam esta fase, destacando-se o gaúcho Lupicínio Rodrigues, o pernambucano Capiba e o amazonense Waldemar Henrique, que fizeram sucesso sem nunca terem abandonado suas cidades natal. Lembrando também de Herivelto Martins, Wilson Batista, Roberto Martins, Custódio Mesquita, Assis Valente, Orestes Barbosa e Mário Lago.

Não poderia encerrar a época de ouro sem antes citar a célebre polêmica musical envolvendo Noel Rosa -o educado e galanteador poeta de Vila Isabel-, e Wilson Batista - o malandro e malicioso compositor-, datada de 1935, em que Noel compôs o samba Palpite Infeliz para responder às canções do referido sambista, que teimou em revidar, agredindo Noel pela sua feiura, o que o magoou, fazendo desistir das provocações.
É inaceitável negar o fato de que, o Rio de Janeiro, na condição de capital federal, foi o epicentro vital da época de ouro.

IV - OS INTÉRPRETES

O primeiro cantor a se aperceber de que os tempos eram outros, e que se podia cantar música popular sem ser necessariamente tenor, barítono ou baixo, foi Mário Reis. Tinha somente um fio de voz , mas uma bossa maravilhosa casando-se à perfeição com o estilo de um compositor que , vindo da fase anterior, de certo modo, ainda dominava a época: J.B. da Silva, o Sinhô. Antes do advento do rádio e da gravação elétrica, um cantor como Mário Reis dificilmente obteria sucesso. Mas agora , na era do microfone , não só apesar de , mas principalmente devido à sua vozinha espontânea e brejeira, Mário possuía justamente a grande credencial para vencer como cantor.

Estavam lançadas as bases de um novo estilo, mais simples e mais lépido de se cantar , e que parecia se ajustar como uma luva ao próprio espírito nacional, marcadamente leve e brejeiro. Mário grava pela primeira vez em 1928, iniciando assim, uma das mais esplêndidas carreiras do cantor.
Logo após, começaram a surgir outros intérpretes notáveis. Um deles é Sílvio Caldas, que aos 5 anos apresentou-se no Teatro Fênix e aos 19 anos já se apresentava na rádio Mayrink Veiga, e dois anos mais tarde na Rádio Sociedade. Fez suas primeiras gravações em 1930, na Victor e na Brunswick. Seu primeiro sucesso de verdade vem em 1931, quando grava o samba Faceira de Ari Barroso. De lá para cá foram só sucessos, como Maria Mimi, Tu , Inquietação, Serenata, etc.

Lançada na fase de ouro, foi uma cantora que iria se destacar não só no Brasil como no exterior: Carmem Miranda. Vinda de Portugal com um ano de idade, desde cedo revela um jeito extraordinário para cantar, com muita graça e personalidade. Conhece o violonista Josué Barros, e com ele começa a trilhar a longa estrada da fama. No entanto é, em 1931, com a marchinha Taí, de Joubert de Carvalho, que conquista definitivamente o Brasil, se firmando como o grande nome feminino na década de trinta. Cada disco novo, um sucesso, a começar pelos sambas de Assis Valente como Good-Bye Boy , Etc, Camisa Listrada, Uva de Caminhão e Recenseamento. Em 1939 o empresário norte-americano Lee Shubert a convida para fazer uma excursão aos Estados Unidos e logo conquista os americanos, fazendo diversos filmes de sucesso sobre o Brasil. Faleceu em 1955.
Carlos Galhardo, foi outro célebre cantor desta fase de ouro. Destacou-se principalmente como intérprete de valsas. Entre seus maiores sucessos, nesse gênero, estão Italiana, E o destinoDesfolhou, Torre de Marfim, Mares da China.

Em 1934, estréia na rádio Cajuti, o Cantor das Multidões, Orlando Silva , gravando seu primeiro disco no mesmo ano pela Columbia. Em 1936 estréia na rádio Nacional, e o sucesso deslancha. Diversas músicas marcam, como Lábios que Beijei, Carinhoso, A Jardineira, Malmequer, etc. Entre 1936 e 1946, será o cantor nº 1 do Brasil.

Porém não o único. Muitos outros devem ser mencionados, como o emérito sambista Cyro Monteiro, que em 1934 é contratado pela rádio Mayrink Veiga e cresce cada vez mais sua popularidade. Em 1938 casa-se com outra cantora também de sucesso: Odete Amaral, formando o casal 20 da época de ouro. Cyro atinge o ápice com a obra Se Acaso Você Chegasse , de Lupícinio Rodrigues. Sua esposa só iria acontecer realmente em 1945, com Murmurando, de Fon-Fon e Mário Rossi.

No entanto, foi Luiz Barbosa o introdutor dos "breques" no samba, destacando-se com seu chapéu de palha usado para acompanhamento rítmico, e encontrando em Vassourinha, por um breve período, um verdadeiro sucessor.

Temos ainda Roberto Silva, num cantar sincopado com divisão rítmica; o compositor Almirante, que também cantou e gravou; assim como Paulo Tapajós, atuante também em outros ritmos além do samba; e ainda Gilberto Alves e João Petra de Barros.

A repertórios mais variados, incluindo outros ritmos, dedicaram-se Deo e Zezé Fonseca. Ritmos mais românticos como samba-canções, valsas e baladas, fizeram parte do cancioneiro de artistas como Leo Albano e Roberto Paiva. Leny Eversong dedicou-se aos foxes e Jorge Fernandes optou por um repertório de inspiração folclórica, assim como Stellinha Egg. Olivinha Carvalho era intérprete de fados e canções portuguesas. J.B. de Carvalho defendeu a arte negra, a frente do Conjunto Tupi.

Entre as cantoras, destacam-se além de Carmem Miranda, Araci de Almeida, segundo César Ladeira, O Samba em pessoa, que se consagrou interpretando músicas de Noel Rosa. Aliás, Noel também teve como sua intérprete Marília Batista. Também fez sucesso na época a cantora paulista Elizinha Coelho, com o disco No Rancho Fundo. Aurora Miranda, irmã de Carmem, também defendeu diversos sambas na década de trinta, e Alzirinha Camargo em 1936 se tornou eterna rival de Carmem Miranda.

Em termos de conjuntos vocais, temos Joel e Gaúcho, vivendo sua melhor fase até 1947; a Dupla Preto e Branco ( Herivelto Martins e Francisco Sena, mais tarde substituído por Nilo Chagas), se desdobraria para incluir Dalva de Oliveira no Trio de Ouro em 1936; Os Cariocas, dos irmãos Ismael Neto atuaram até 1967; e também os Vocalistas Tropicais, formado em 1942 em Fortaleza. Isso tudo antes da explosão das duplas sertanejas.


V - O PERFIL DE CADA ARTISTA

V.1 - OS MÚSICOS

Radamés Gnatalli: O maestro gaúcho deu à MPB um certo toque de sofisticação erudita dos anos 30. Radamés não foi apenas o arranjador de fôlego e o pianista de qualidade, mas também compositor de peças populares e eruditas.

Benedito Lacerda: Foi líder do famoso Regional dos anos 30, que acompanhou gravações antológicas da MPB. Pixinguinha (com seus Diabos do Céu) fez maravilhas na mesma década. Finalmente juntos nos anos 40.

Luperce Miranda: O bandolista sergipano foi solista desde os tempos dos Turunas da Mauricéia, quando o grupo chegou ao Rio de Janeiro em plena década de 20. Luperce orgulhava-se de ser considerado um solista internacional, mesmo sem ter nunca saído do Brasil. E era.
Jacó do Bandolim: Se Luperce tinha os dedos do virtuose, o carioca Jacó tinha os dedos plantados no coração. O pequeno instrumento na sua mão era acarinhado como um bebê de ouro, recebendo afagos, amor e emoções. Organizou o conjunto regional Época de Ouro.
Garoto: O paulista Aníbal Sardinha, o Garoto, é considerado um dos precursores da bossa nova. O toque moderno e a afinação singular dele fizeram um ícone do instrumento, além de autor inspirado ( Gente Humilde) e integrante do Bando da Lua.

Dilermano Reis: O violonista paulista chegou, e com razão a ser considerado o Rei do Violão, a partir dos anos 30. Intérprete preciso e compositor de choros e valsas, foi o primeiro músico a tocar em Brasília.

Carolina Cardoso de Menezes: Nascida em família de músicos, a jovem carioca firmou-se como pianista desde cedo. A execução de choros fez dela uma das executantes preferidas desse gênero musical carioca, de harmonias difíceis e sofisticadas.
Copinha: O flautista Nicolino Coppia ( Copinha ) teve uma atuação muito mais modesta do que seu talento deveria exigir. Integrante de uma seleção de ouro da MPB, Copinha foi líder de conjuntos de qualidade.

Nonô: O pianista fluminense foi um dos mais solicitados na década de 30, graças ao insuperável sentido de ritmo que fazia extrair de seu instrumento. Tio de Cyro Monteiro e dos irmãos Peixoto (Caubi, Moacir e Araquem), ë uma justa legenda.

Abel Ferreira: Certa vez alguns críticos de música se juntaram no Museu da Imagem e do Som e elegeram o sopro deste clarinetista carioca o mais lindo da MPB. E não sem razão. A maciez e o sentimento do som extraído por Abel chegam a ser arrebatadores.

Vadico: Erra quem pensa que o paulista Osvaldo Gogliano, o Vadico, só deve a lembrança de seu nome como parceiro de Noel Rosa. O pianista foi músico muito respeitado, arranjador de qualidade e ainda autor de melodias inesquecíveis, muitas delas sem Noel como parceiro.


V.2 - OS COMPOSITORES

Ari Barroso: O compositor mineiro foi também pianista, locutor e ferrenho defensor da integridade dos ritmos brasileiros. É autor de Aquarela do Brasil, a obra brasileira mais gravada no mundo.

Noel Rosa: Ninguém mais sedutor que o carioca Noel, tanto pela qualidade poética de sua obra quanto pelo fato de ter vivido intensamente como poeta. De que sua morte por tuberculose, aos 27 anos é eloqüente testemunho.
Lamartine Babo: Criador das melhores marchinhas dos carnavais nos anos 30, o admirável Lalá - assim era conhecido pela geração do Café Nice- foi compositor poliforme e também autor de valsas e canções.

Lupicínio Rodrigues: Compositor singularíssimo de sambas-canções que mergulharam fundo no bas-fond e nos cabarés, este gaúcho é poeta da boêmia e prostitutas.

Capiba: É autor de sucessos para os carnavais de Recife e Olinda, mas muitas dessas composições nunca chegaram ao eixo Rio-SP. Foi excepcional criador de melodias, uma das quais, Maria Bethânia, daria nome à famosa cantora baiana.

Waldemar Henrique: Raro e belo exemplo de potencialidade musical do povo amazônico nos anos 30. Foi maestro, pianista e poeta. É autor de obra valiosa, inclusive as deliciosas canções baseadas nas lendas da Amazônia.

Herivelto Martins: O compositor fluminense foi até produtor executivo de Orson Welles no filme It is all true. Mas fez muito mais: constituiu o Trio de Ouro (com Nilo Chagas e Dalva de Oliveira, então sua mulher) e compôs mais de 200 sucessos.

Wilson Batista: O sestroso compositor fluminense freqüentou as rodas mais quentes da boêmia da década, do morro da Mangueira ao Mangue (prostituição carioca), da Lapa ao Estácio.

Braguinha: Ombreando com Lamartine Babo no repertório carnavalesco, Braguinha ou João de Barro, chegou aos 90 anos em 1997 coberto de justas glórias.

Roberto Martins: Ao lado dos inseparáveis Ataulfo Alves e Carlos Galhardo, o guarda-civil carioca foiautor de sucessos dos anos 30 e 40, inclusive músicas de peso social como Pedreiro Waldemar, "que faz casa e não tem casa para morar".

Custódio Mesquita: Maestro insinuante, tipo romântico de beleza, o pianista carioca foi um mestre das canções e valsas.

Assis Valente: Apesar de baiano de nascimento, ninguém foi mais carioca do que ele no espírito para fazer de suas músicas crônicas ao Rio. Assis encontrou em Carmem Miranda, que lhe gravou melhor da obra, a intérprete ideal. Além de musa.

Ataulfo Alves: A obra elaborada pelo mineiro não poupou tristeza e lamento em seu arsenal de inspiração. Quem tiver um ouvido mais apurado perceberá que o autor de Amélia é dona da mais característica chancela melódica da MPB.

Orestes Barbosa: O jornalista não só freqüentou as melhores redações do Rio nos anos 30 e 40, como foi também poeta inspiradíssimo e letrista de jóias como Chão de Estrelas.

Mário Lago : Letrista de escola, parceiro de Ataulfo e Custódio, entre tantos, também radialista e ator chega aos 90 anos coberto de glórias.
Dorival Caymmi: Ninguém mais baiano na arte e na vida do que ele. Não é à toa que sua obra excepcional é elaborada lentamente, gota a gota, palavra a palavra. O menestrel da Bahia foi o cantor mais fiel que qualquer cidade do mundo jamais teve.


V.3 - OS INTÉRPRETES

Carmem Miranda: A estrela absoluta da época de ouro, foi sucesso na rádio Mayrink Veiga, onde lançava seus discos para todo o Brasil. Saindo do Cassino da Urca em 1939, embarcou para os Estados Unidos. Foi, viu e venceu . Instantaneamente fez-se estrela mais do que isso: virou mania, fez moda e internacionalizou os turbantes e balangandãs.

Sílvio Caldas: O cantor carioca teve rara sabedoria ao escolher sempre o melhor repertório. Esbanjou elegância ao cantar com contenção pouco usual para a época, tendo gravado de 1931 até 1995.

Mário Reis e Francisco Alves: Festejados cantores, gravaram juntos cerca de uma dúzia de clássicos. Separados, o popularíssimo Chico seria o Rei da Voz e uma presença indispensável até morrer tragicamente em 1952, enquanto o contido e elegante Mário retirou-se estrategicamente, só voltando em ocasiões especiais.

Araci de Almeida: Quem, afinal, foi a intérprete preferida de Noel: Araci ou Marília Batista? E isso lá interessa? A carioca Araci de Almeida com certeza, transcendeu Noel para firmar-se como uma estilista do samba, sem paralelos. E sem rival.

Marília Batista: Noel descobriu a jovem carioca atraente, que cantava e tocava violão. Marília não se fez de rogada e logo foi cantar com Noel no programa do Casé.

Luís Barbosa: Há um certo mito em relação a ele. Pois gravou pouquíssimo, morreu muito cedo e cantou samba como ninguém.
Déo: Também conhecido como o turco, não chegou a ser um ditador de sucessos como queria o locutor César Ladeira, que sapecava apostos em todos os intérpretes. Mas Déo gravou alguns êxitos que dele fizeram um respeitado cantor da época.

Moreira da Silva: A ex-motorista de ambulância se converteria numa das mais gratas permanências dentro da MPB. Criador do breque falado e sambista irrepreensível, Moreira começou - acredite se quiser- como seresteiro romântico e derramado.

Gilberto Alves: Apesar de cantor das valsas românticas, gravou muito para o carnaval. Seu sucesso, mesmo discreto, foi considerável, especialmente se computarmos as inúmeras gravações feitas em 78 RPM e em elepês nos anos 50 e 60.
Carlos Galhardo: o ex-alfaiate paulista, filho de italianos, foi considerado um dos quatro grandes, ao lado de Sílvio, Orlando e Chico Alves. Não sem razão, atingiu fundo a alma romântica brasileira ao criar um meloso repertório de valsas.

Orlando Silva: O ex-trocador de bonde carioca, magrinho, feio e puxando de uma perna, converteu-se, num abrir e fechar de olhos, no maior cantor do Brasil. Milagre? Não. Apenas uma voz. Uma voz como nunca se ouvira antes, em beleza, timbre e frascado. Era Deus cantando.
Linda Batista: A jovem paulista saiu da época de ouro para brilhar durante os anos 40 e 50. Estilista que imprimia a marca de sua interpretação, Linda orgulhava-se de jamais ter cantado uma música estrangeira.

Dircinha Batista: Estreando aos 16 anos com Pirata da Areia ( Braguinha e A.Ribeiro) no musical Alô,Alô Carnaval (1936). Criaria sucessos nas décadas subseqüentes, especialmente peças de Ari Barroso, que a tinha como intérprete favorita.

Paulo Tapajós: O modinheiro carioca fez carreira discreta como cantor, reinterpretando jóias dos clássicos do passado, especialmente Catulo da Paixão, Paulo foi diretor artístico da Rádio Nacional e, posteriormente produtor da rádio MEC.
Augusto Calheiros: Chegando ao Rio de Janeiro de Pernambuco como intérprete dos Turunas da Mauricéia, especializou-se em canções românticas, cantadas com voz monocórdica e sempre igual.

Almirante: Como Tapajós, Henrique Foréis, o Almirante começou como cantor nos anos 30 e depois abraçou a carreira de radialista. Constituiu importante arquivo de música popular, no Museu da Imagem e do Som desde 1965.

Odete Amaral: Casando-se com Cyro Monteiro, Odete Amaral, a voz tropical (mais uma vez César Ladeira batizando tudo e todos), tinha um timbre macio e raro que deveria fazer dela uma estrela de primeira grandeza. O que não ocorreu.

Cyro Monteiro: Cantor irrepreensível de sambas e ser humano raro - a ponto de ser considerado pelo poeta Vinícius "um abraço na humanidade"- o fluminense começou com a histórica gravação de "Se acaso você Chegasse" (1938).

VI - CONCLUSÃO

O trabalho mostrado é leitura farta e rica para os leigos e até mesmo aquele com certo conhecimento em Música Popular Brasileira, uma vez que retrata, mesmo que superficialmente, a principal fase da nossa música, a Época de Ouro, compreendida entre os anos trinta, quarenta e final dos anos cinqüenta. O leitor tem informação sobre os períodos e artistas, situando-se em suas peças e trabalhos, e algumas repercussões.

Com a maior parte dos nossos melhores artistas tendo atuado nesta época, temos heranças culturais imprescindíveis e obras imortais, espalhadas por todo o mundo. No fraseado de um Mário Reis, no estilo interpretativo de Carmem Miranda, na bossa do samba de breque de um Luis Barbosa e no romantismo de um Orlando Silva, fica bastante clara a influência direta e indireta deste período para os seus sucessores, como a Bossa Nova, a Era do Rádio, a Tropicália e outros, chegando até os dias atuais , com alguns de seus personagens ainda constantes entre nós.

Indiscutivelmente a Fase Áurea da nossa música foi e será sempre ponto de referência para os estilos que a sucederam, no entanto nunca mais haverá época igual, em que, com o único meio de divulgação sendo o rádio (somente bem mais tarde é que veio a televisão, e mesmo assim, nos primeiros anos, para uma classe bem restrita), conseguem propagar as vozes e obras de seus músicos, de modo que os consagram muitas vezes como reis e rainhas, diante de um público cada dia mais sedento de novas canções. Época em que seus compositores, maestros e cantores tinham como fonte de inspiração maior a "malícia ingênua" do carioca, e do brasileiro em geral.

Para nós, descendentes destes esplendorosos magos da música (magos sim, pois algumas músicas parecem fruto de magia, de tão perfeitas que são) só nos resta manter viva a lembrança destas obras, de geração para geração, e nos esforçarmos para tentar, não substituí-los ou imitá-los, e sim criar e marcar o nosso estilo musical assim como eles fizeram. E torcermos para que sejamos também imortalizados.

por: Ricardo Freitas Hautequestt

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