Slide

Pesquisar

As Big Bands no Interior Paulista



Um estudo histórico sobre o fenômeno das big bands no interior do Estado de São Paulo
O fenômeno das big bands, compreendido como a multiplicação de pequenas orquestras de jazz que, aos moldes dos grandes exemplos nos Estados Unidos, se espalharam pelo interior do estado de São Paulo (e,igualmente, pelo resto do país), especialmente a partir da década de 1950,é um fenômeno histórico e social de profundo interesse e que até omomento não recebeu nenhum estudo histórico aprofundado.
Da ausência quase que completa de um mapeamento do fenômeno histórico das big bands no interior do estado de São Paulo, como por exemplo as de Nelson de Tupã, Pedrinho de Guararapes, Continental de Jaú, Sul América de Jaboticabal e mesmo as orquestras de Julio Bocaletti e de Berico em Campinas, dentre tantas outras, e da importância e permanência na memória destas orquestras, surgiu a hipótese da presente pesquisa, em fase de realização. As big bands nos Estados Unidos, em sua origem compostas por músicos de clubes que combinavam elementos de jazz a ritmos mais suaves e dançantes, originaram um estilo popular que teve como precursoras as orquestras de Paul Whiteman e Vincent Lopes, ainda em torno de 1910. Como estas pequenas bands aumentaram gradativamente de tamanho, passaram a ser denominadas big bands (grandes orquestras). Com a expansão do rádio na década de 1920, o som destes grupos
musicais se tornou rapidamente acessível a uma audiência antes inimaginável, visto que apenas em viagens através do país ou em discos poderiam se tornar conhecidas. Em termos musicais, as big bands apresentavam grandes seçõesde instrumentos de sopro, à maneira de orquestras, acompanhadas por piano, baixo e bateria, bem como por cantores (crooners) que executavam
as baladas românticas. O clarinetista Benny Goodman foi um dos pioneiros em aliar a música de "swing"- jazz suingado, como algumas vezes se dizia no Brasil - com outras melodias românticas, mais populares. O swing permitia que os líderes das orquestras e outros músicos mostrassem suas habilidades como músicos, por meio de solos; as baladas eram dançantes.
Não por outra razão, as orquestras utilizadas para animar bailes e festas eram diferentemente qualificadas de dance bands.
Já por volta de 1935 esta combinação era um sucesso, não apenas no caso da orquestra do pioneiro Benny Goodman, mas também com a orquestra do clarinetista Artie Shaw, de Tommy Dorsey (que trazia Sinatra como seu cantor principal), Harry James (antes parceiro de Goodman), Duke Ellington e, talvez a mais célebre de todas, a orquestra de Glenn Miller. Orquestras menores, muito célebres nos EUA, tiveram também seus dias de glória, como as de Sammy Kaye, Jan Garber, Ben Pollack e Guy Lombardo.
O ápice da popularidade deste fenômeno se deu durante a Segunda Guerra Mundial e, paradoxalmente - visto que, ao menos nos Estados Unidos, estes foram anos de afluência e consumismo, o declínio das bands iniciou com o fim da guerra. Muitos músicos que haviam sido recrutados como soldados não retornaram às suas atividades; outros intérpretes tiveram tal sucesso que seguiram carreira solo, abandonando suas orquestras. O surgimento da TV alterou a importância e a abrangência deste entretenimento, enquanto os grupos pequenos de jazz ou bebop passaram a ter maior espaço nos clubes noturnos.
No caso das grandes orquestras que animavam bailes ou trabalhavam em clubes - as dance bands - o auge nos Estados Unidos ocorreu entre 1936 e 1945; na Europa, ocorreu mais ou menos à mesma época, embora a Segunda Grande Guerra, enquanto impulsionou o fenômeno nos Estados Unidos, o fez regredir em países como Inglaterra,Alemanha e França.
No Brasil, o auge do fenômeno se estende ao longo das décadas de 1950 e 1960, fortemente inspirado pelo exemplo americano. No interior de São Paulo era grande o número de orquestras, grandes e pequenas, locais ou em constante excursão, que pontuavam o calendário com apresentações, geralmente associadas a bailes promovidos por clubes.
Muitas pequenas bandas eram formadas com vistas a apresentações em bailes locais e festas de formatura - havia "um quê" de Glenn Miller em cada uma delas. Assim, cidades do interior, como Tupã, Guararapes, Catanduva, Bauru, Marília, Paraguaçu Paulista, Jaboticabal, possuíam orquestras disputadíssimas em suas festas de formaturas, bailes da primavera, carnavais, bailes semanais dos clubes locais e outros eventos. As grandes orquestras do interior possuíam, de modo geral, a seguinte composição: 4 trompetas (pistons), 3 trombones de vara, 5 saxofones (2 altos, 2 tenores e um barítono) e o que os músicos chamavam de "cozinha": bateria, piano etc. O sopro era considerado o elemento mais nobre do conjunto.
O fenômeno do sucesso das grandes orquestras manteve-se a partir de um complexo equilíbrio entre apresentações nas rádios, notícias na imprensa especializada, gravação de discos, apresentação em bailes de formatura ou bailes especiais em clubes do interior, e, mais tarde, aparições no cinema. Deste modo, os sons ganhavam faces, o líder ou maestro parecia estender seu carisma a seus músicos, os quais, do mesmo modo, faziam suas interpretações muitas vezes de forma coreografada, levantando-se em momentos-chave da músiva, com o movimento de seus corpos marcando a cadência de sua música, tornando a apresentação um espetáculo em si. Os crooners ou lady-crooners, do mesmo modo, tinham importância fundamental na execução das músicas e na performance como um todo.
As orquestras encetavam toda uma rede de sociabilidades, tanto dentro dos bailes, como na relação entre os músicos. Não se pode ignorar o fato de que, nas pequenas orquestras locais, a participação nos grupos musicais era algo como "um segundo emprego" para músicos, muitas vezes, de origem bastante humilde; notadamente, nesta atividade havia uma expressiva participação de negros.
Uma das hipóteses da presente pesquisa indica que a rápida celebridade alcançada pelas orquestras, além da qualidade de seus músicos, cuja formação era muitas vezes autodidata, consistia em articular sons de diversas origens, atingindo a um gosto variado. Nos salões dos clubes era comum que as orquestras apresentassem uma seleção variada de sons e "ritmos", incuindo o samba, fox, blues, canções, bolero e baião.
Outra hipótese refere-se à investigação dos procedimentos e rituais envolvidos pelas performances da orquestra. De um lado, as orquestras se faziam identificar pela repetição de uma "introdução" ou "fechamento" musical, uma peça sempre executada e que caracterizava aquele grupo.
Por fim, não é possível compreender o funcionamento das bands sem considerar seu caráter "itinerante", em constante deslocamento e inscrição no território. A "itinerância", talvez causada pelo fechamento dos cassinos na década de 1940 (até então locais privilegiados para a apresentação de orquestras), é um fator de bastante interesse na pesquisa. As cidades do interior eram "visitadas" pelas orquestras, o que gerava bastante expectativa. Logo, uma terceira hipótese de trabalho indica a complexa rede de sociabilidades que permite a expansão do fenômeno das big bands. No Brasil, a partir da década de 1940, o som americano torna-se parte do hábito de escutar e bailar, o inglês é aceito e ensinado nas escolas, e o "I love you" passa a figurar como a perfeita tradução do sentimento romântico.
A partir do final da década de 1960, o fenômeno das orquestras itinerantes começa a perder força. A ampla divulgação e acessibilidade dos LPs pode ter sido responsável pela substituição da música gravada pela música ao vivo; além disso, a TV passa a seguir os passos do rádio das décadas anteriores e de trazer as orquestras para apresentações na TV, ao  vivo, e, mais tarde, gravadas. Muitos canais de TV possuirão suas próprias orquestras, como Alfredo Grossi e sua Orquestra Típica (Canal 3), Enrico Simonetti e sua Orquestra (TV Excelsior), e mesmo aparições de Severino Araújo e Orquestra Tabajara e de Silvio Mazzuca e sua Orquestra. Acentuase a partir da década de 1960, o surgimento dos grupos de rock e o progressivo desaparecimento (não em uma relação de causa-efeito) das"pequenas big bands" locais, que se desagregam e deixam poucos traços de sua atuação.
Como afirmado, no Brasil, inexplicavelmente, este fenômeno ainda não mereceu um levantamento histórico organizado, embora tenha sido
parte constante na vida cotidiana das populações urbanas das décadas de1950 e 1960. Em parte, o material relevante sobre estes grupos perdeu-se; as perfomances não foram registradas; os músicos se separaram. Poucos registraram seus relatos em livros de memórias. As fontes de pesquisa para esse estudo estendem-se desde arquivos de clubes, revistas especializadas mas, especialmente, nas entrevistas e registros das memórias dos músicos e frequentadores de bailes. A recuperação destas vivências possibilita um olhar amplo sobre as sociabilidades urbanas no Brasil das décadas de 1950 e 60.

Por Cristina Meneguello

Nenhum comentário:

Postar um comentário